Ciência para o Brasil
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) disponibilizou o Livro Ciência para o Brasil – 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que foi produzido com recursos financeiros da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.Fazer ciência no Brasil nunca foi uma tarefa para corações fracos. Olhar para trás e mapear a história do desenvolvimento científico e tecnológico do país exige, inevitavelmente, cruzar caminhos com uma sigla que transcendeu os laboratórios para se tornar uma das maiores trincheiras democráticas da América Latina: a SBPC.
Publicada para celebrar as sete décadas da instituição, a obra coletiva Ciência para o Brasil: 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), organizada por Helena B. Nader, Vanderlan S. Bolzani e José Roberto Ferreira, reconta essa odisseia. Escrito por jornalistas de ciência e grandes pesquisadores, o livro funciona tanto como um documento histórico rigoroso quanto como uma reportagem de fôlego, mostrando que o progresso científico e o amadurecimento democrático brasileiro são duas faces da mesma moeda.
Da Torre de Marfim ao Fórum Social: A Fundação (1948)
Quando a SBPC foi fundada, em julho de 1948, na esteira do pós-Segunda Guerra Mundial, o cenário da pesquisa no Brasil era desolador. Salvo raras e heroicas exceções institucionais — como o Instituto Oswaldo Cruz (Manguinhos) e o Instituto Butantan —, o país engatinhava. A Universidade de São Paulo (USP), marco inicial da pesquisa integrada ao ensino superior nacional, tinha meros 14 anos de vida.
Idealizada por mentes brilhantes como o médico e fisiologista Maurício Rocha e Silva, o biomédico José Reis e o físico pioneiro Jorge Americano, a SBPC nasceu com o objetivo inicial de aproximar pesquisadores e defender as prerrogativas da ciência. No entanto, como aponta o jornalista e sociólogo José Roberto Ferreira na abertura da obra, as peculiaridades da história brasileira logo empurraram a instituição para uma missão muito mais ampla. O livro sugere, inclusive, uma provocação certeira: a sigla bem que poderia significar SCPB – Sociedade Científica para o Progresso do Brasil.
Os Anos de Chumbo e as Reuniões Anuais como Resistência
O verdadeiro teste de fogo da SBPC veio com o golpe militar de 1964. Enquanto cientistas eram cassados, aposentados compulsoriamente e institutos eram vigiados, as Reuniões Anuais da SBPC transformaram-se, progressivamente, no maior e mais vibrante fórum aberto de debate e crítica aos desmandos do regime ditatorial.
Durante as décadas de 1970 e 1980, quando sindicatos estavam calados e a imprensa sofria sob o jugo da censura prévia, as assembleias da SBPC tornaram-se o espaço onde intelectuais, estudantes e movimentos sociais se reuniam para clamar pela anistia, denunciar abusos ambientais na Amazônia e planejar a redemocratização. Sob a liderança de figuras como o físico Oscar Sala (presidente da entidade entre 1973 e 1979), a sociedade civil brasileira encontrou na comunidade científica uma voz corajosa que os militares não podiam silenciar facilmente sem atrair o repúdio internacional.
A Consolidação de um Sistema Nacional
A obra esmiúça o salto quantitativo e qualitativo que a ciência deu no país após esse período turbulento. A partir da Reforma Universitária de 1968 e da consolidação de agências de fomento fundamentais — como o CNPq e a Capes (criados em 1951), a Finep (1967) e o pioneirismo das Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), lideradas pela Fapesp —, o Brasil começou a desenhar sua maturidade acadêmica.
Os dados apresentados no livro mostram o impacto dessa interiorização e crescimento. Na pós-graduação, o salto foi monumental: em 1998, dez estados brasileiros sequer formavam doutores. Duas décadas depois, em 2018, todos os estados da federação já contavam com programas de doutorado ativos, totalizando mais de 2,1 mil cursos em nível nacional.
A pesquisa brasileira deixou de ser um privilégio do Sudeste para fincar raízes profundas no Nordeste, no Sul, no Centro-Oeste e na região Norte, transformando o Brasil em um player global em áreas cruciais como medicina tropical, biocombustíveis, física de partículas e ciências agrícolas — esta última impulsionada pelo sucesso incontestável da Embrapa.
O Papel Crítico da Divulgação Científica
Um dos grandes trunfos de Ciência para o Brasil é colocar a comunicação pública da ciência no centro do palco. Não por acaso, um de seus fundadores, José Reis, empresta seu nome ao principal prêmio de divulgação científica do país. A SBPC entendeu, desde o início, que a ciência só se sustenta se for abraçada pelo cidadão comum como um patrimônio coletivo.
Ao recrutar jornalistas especializados para dar vida às suas páginas, o livro traduz termos herméticos em uma narrativa pulsante e acessível. A publicação reforça a premissa de que a ciência não deve se isolar em "torres de marfim", mas sim ocupar as ruas, as escolas, o parlamento e as novas mídias digitais.
Um Farol para o Futuro
Setenta anos após o seu primeiro manifesto, o livro nos lembra que as ameaças à atividade científica são cíclicas. Negacionismos, cortes orçamentários drásticos e tentativas de desidratação das universidades públicas continuam a testar a resiliência dos pesquisadores brasileiros no século XXI.
Ciência para o Brasil: 70 anos da SBPC não é apenas um olhar nostálgico sobre o passado. É um manual de resistência. Ao recontar como a comunidade científica nacional superou ditaduras, crises econômicas e o isolamento geográfico para construir um ecossistema de pesquisa respeitado mundialmente, a obra entrega um farol de esperança. A mensagem implícita é clara: defender a ciência brasileira é, antes de tudo, defender a própria sobrevivência do projeto democrático e soberano do Brasil.
O livro "Ciência para o Brasil: 70 anos da SBPC" (2019) conta com o apoio da FAPESP e sua versão integral em PDF pode ser acessada gratuitamente no portal oficial da SBPC, em https://portal.sbpcnet.org.br/wp-content/uploads/2020/07/Livro-SBPC-70-anos.pdf
Os autores são 17 jornalistas e um historiador, todos com características profissionais em comum que os credenciam para a assinatura dos capítulos: conhecem a trajetória da SBPC, têm percepção e compreensão profundas do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação, e se dedicam à divulgação científica há vários anos. Os organizadores da obra são a biomédica Helena Nader, a farmacêutica Vanderlan Bolzani e o jornalista José Roberto Ferreira.
Referências:
NADER, H. B.; BOLZANI, V. S.; FERREIRA, J. R. (Orgs.). Ciência para o Brasil: 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). São Paulo: SBPC, 2019. Disponível em: http://portal.sbpcnet.org.br/publicacoes/ciencia-para-o-brasil/.






